Segunda-feira, Novembro 16, 2009

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Nada

Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado.

Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.

Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo – vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes num rodopio sinistro e sem fundo.

E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.

E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.

Fernando Pessoa
Livro do desassossego

Terça-feira, Novembro 10, 2009

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depois do silêncio

uma vida, um discurso jogado ao vento
decurso de uma incompreensão
agravada dia após dia
um não entender que se agiganta
dor de não saber o que virá

anseios de ser, tornar-se, compreender
ser uma suavidade que te acalma
mas é tanto que se diz sem saber
que tudo fica como um cenário mudo
fico sem entender e não sei mais estar aqui

****


Quinta-feira, Outubro 22, 2009

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Só (Oswaldo Montenegro)

Só (Oswaldo Montenegro)

Vontade de ser sozinho sem grilo do que passou
A taça do mesmo vinho sem brinde, mas por favor
Não é que eu não tenha amigos não, não é que eu não dê valor
Mas hoje é preciso a solidão em nome do que acabou

Vontade de ser sozinho mas por uma causa sã
Trocar o calor do ninho pelo frio da manhã
Valeu a orquestra (se valeu!) mas agora é flauta de Pã
Hoje é preciso a solidão com a benção do deus Tupã, ô menina

E a quem perguntar quando o vento sopra, responda que já soprou
Mas o vento não traz resposta, acabou

A flecha que passa rente, cantor implorando bis
O cara que sempre mente, a feia que quer ser miss
Gaivota voando sob o céu, a letra que eu nunca fiz
Tudo é a mesma solidão mas dá pra se ser feliz

E a quem perguntar quando o vento sopra, responda que já soprou
Mas o vento não traz resposta, acabou

E todo mundo é sozinho, ai de quem pensar que não
A moça com seu vizinho, soldado com capitão
E resta a quem está sem seu amor, amar sua solidão
Hoje é preciso o uivo de um lobo na escuridão

****

Há o ser da solidão?
Há o ser ou apenas uma ilusão natural de quem experimenta?
O que afinal diz a arte?
Quantos deixaram de ser sozinhos pelo medo do frio,
pela incerteza do que não se sabe se virá?
E quem os condenará? ...

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

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Andanças

Não sei como parti
Nem sei como mantenho a marcha
Se chegar, talvez nem perceba
Sendo assim, não sou otimista
Nem quanto a resultados
Nem quanto às possíveis paradas
Contento-me, porém, com as paisagens
Se isso me bastasse
Talvez nem soubesse

Domingo, Outubro 18, 2009

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Irregularidades

Há um dito não proferido
em toda ação não realizada
Mas há também com bastante certeza
uma palavra qualquer escondida
no silêncio da noite que me anuncia
de certa melancolia incontida
no sol que se despede...

Haverá sentido profundo
na complexidade infinita da estrutura
ou na simplicidade certeira do efeito
de um tal sentimento?
Sondar tal mistério é poesia
Responder não me cabe

Terça-feira, Outubro 13, 2009

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Última coisa esmurrada...

Parabrisa do carro, pouco antes de sair de viagem. Prejuízo de R$ 220,00 e muita insatisfação pessoal. Conclusão do estudo: mais uma coisa imprópria para se esmurrar.


****

"Raiva é insanidade passageira"
Horácio

****

Quando criança, olhava para os mais velhos como fantasmas divinos, modelos abstratos do que seguir ou não. Buscava a aprovação, assim como a reprovação. Hoje constato perplexo que se aprovo ou reprovo, esta ação se dá sobre mim e não sobre ninguém mais.

Sábado, Outubro 03, 2009

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Deuses

Todos nós somos ateus em relação à maioria dos deuses que a sociedade já acreditou alguma vez. Alguns de nós apenas não creem em um deus a mais.

Richard Dawkins
The root of all evil?

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

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Arranjos

não sei como é que se pode ser romântico
mas também não sei como se pode ser amargo

todos com suas razões
todos com suas tendências

o fato é que se apresentam,
mas não se desvelam...

não há essência do romantismo
nem da amargura

pois não há essência em sentir
como não há essência em viver

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

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Leituras

Eu sou meu livro de cabeceira
objeto impróprio de uma leitura infértil
salto páginas, buscando o sono

Noite após noite percebo surpreso
que só o que faz sentido finda

Releio, passado
umas e outras páginas que me sustentam
ainda que em pleno ar

subo escadas íngremes
com a infinita incerteza de viver
como em um sonho cinza, apagado
que nos puxa para baixo ou para cima

leio nas paredes um tanto escuras, avisos rasgados
de perigos de guerra, de luta, de morte
como se abafar o grito fosse trazer a calma...

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

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Ausências...

Na ausência de expressão própria, algo que talvez valha a pena...

****

Nesses períodos da sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que algarismos, ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus atos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.

Assim se passam dias sobre dias, nem sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado assim. Às vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim, talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira; ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações, perante um mais íntimo pensar, um sentir mais meu, uma vontade perdida algures no labirinto do que realmente sou.

Livro do desassossego
Fernando Pessoa

Quinta-feira, Junho 25, 2009

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Poeira

há que se lutar tanto para escapar
é essa a metáfora que sempre nos contaram?
é por aí que vai a poesia, a fantasia...
é isso mesmo que acontece?
a gente caminha, caminha e de repente cansa
chuta tanta poeira pela estrada e é tanta estrada
que enfim se mistura à poeira e se deixa levar pelo vento...

é assim mesmo que funciona?
é só isso mesmo? a graça é justamente essa?
é tanta experiência, é tanto peso levantado que a gente fica forte
fica sim, vai e volta... cansa e descansa
e tudo se inverte... toda inércia me move e às vezes engole
me puxa, distende, comprime...
até o trago de uma derrota amarga cair na poeira,
ser grão pequeno que vira nuvem,
aceitar o fluxo numa briga violenta, vida e morte
se esse é o caminho, sejamos...

Terça-feira, Junho 23, 2009

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Diálogo

“Quando um homem começa a falar, até mesmo as coisas mais simples se tornam complicadas e ininteligíveis.”
Hermann Hesse


“Pois mesmo os melhores erram nas palavras quando elas devem significar o que há de mais leve e quase indizível.”
Rainer Maria Rilke

Sexta-feira, Maio 22, 2009

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Migrando...


Segunda-feira, Maio 11, 2009

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Sociedade e franqueza...

"Demoraria muito tornar-se misantropo quem se ativesse à observação de outrem. É notando nossas próprias fraquezas que acabamos por lamentar ou por desprezar o homem. A humanidade da qual nos afastamos então é a que descobrimos no fundo de nós. O mal esconde-se tão bem, o segredo é tão universalmente guardado, que cada um de nós é aqui vítima do logro de todos: por mais severamente que pretendamos julgar os outros homens, cremo-los, no fundo, melhores do que nós. É sobre esta feliz ilusão que assenta uma boa parte da vida social."

Henri Bergson
Filósofo francês





Quinta-feira, Maio 07, 2009

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da impossibilidade de dizer-se...

perdi a mão
ficou a caneta
superficial,
tentando me dizer

Segunda-feira, Maio 04, 2009

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Lembranças

provar o sabor do café
como quem prova o sabor da casa
provar o abraço que aperta forte
como quem prova da alegria e do aconchego
o sabor da fruta
como quem mergulha em água fresca
provar uma lembrança
como que a revivê-la
muito mais intensamente
pois o que fomos, somos sempre mais
viver como que a esquecer de viver
ser como quem é, e prossegue
ainda que só um lampejo faça brilhar um espanto
em meio à escuridão
ainda que eu me recorde, reviva, saboreie, mergulhe e sonhe
apenas de quanto em quando

Domingo, Março 22, 2009

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Humanidades

Pensar é nossa sina. Superior, inferior... poesia, filosofia, arte, ciência? Defeito meu, não sei julgar...

****

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

(Vinicius de Moraes)

Sexta-feira, Março 06, 2009

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Passatempo

tempo, o que me lembra o tempo
tudo que pulsa como o tempo
tudo que representa o tempo
tento, mas não alcanço
revivo e não basta
passa tempo, passa
que é tudo que sabe ser
vai, porque ir é tudo que te resta
ser sentido como o vento
escorrer como um rio qualquer
espraiar-se indefinidamente
passa tempo, passa
vai, por que se não te sei ser
não compreendi nada dessa vida
chorei em vão e não te acompanhei
vai, segue teu caminho
quem sabe um dia te entendo
abraço teu sentido de passar
e te aceito, ainda que num momento derradeiro

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

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Drummond

Nem tudo se diz por si. Nada se diz além de si.
Vale por Drummond...


Domingo, Janeiro 18, 2009

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Como partir

Com a leveza de saber que nada faz sentido
nem se chega, passa-se
e é passando que se vive, e se morre

Com a agudeza de uma lágrima
mergulhando no fundo de uma gota
lavando o que já se foi

Com um sorriso brando e sereno
aos quarenta e seis do segundo tempo
com muita calma, tanto ainda por acontecer

Com as mãos entrelaçadas no bolso do casaco
caminhando com um vento frio no rosto
sozinhos, sempre, lado-a-lado